
Há uma contradição difícil de ignorar no discurso de Cícero Lucena sobre segurança pública. O candidato ao Governo resolveu partir para o ataque contra o secretário Jean Nunes e cobrar resultados das forças de segurança justamente em uma eleição na qual sua própria candidatura foi alvo de uma tentativa de impugnação baseada em investigações sobre supostas relações entre a gestão municipal e integrantes de facções criminosas.
Não se trata de afirmar que Cícero integra ou integrou organização criminosa. O TRE-PB deferiu sua candidatura por maioria, e um dos integrantes da Corte ressaltou que não havia denúncia formalizada contra o ex-prefeito. Mas também não dá para apagar o outro lado da história: o Ministério Público Eleitoral tentou barrar seu registro com base em elementos relacionados à Operação Território Livre e, após perder no TRE-PB, recorreu da decisão.
É nesse contexto que soa, no mínimo, contraditório ver Cícero direcionando suas críticas justamente à estrutura de Segurança Pública. Enquanto o candidato acusa o secretário de estar preocupado em defender o próprio cargo, Jean Nunes responde lembrando investigações envolvendo pessoas ligadas à administração municipal e questionando a autoridade política de Cícero para tratar do tema.
A discussão fica ainda mais sensível porque as investigações sobre a presença de facções na política de João Pessoa não ficaram restritas ao debate eleitoral. A candidatura de Janine Lucena, filha de Cícero e ex-integrante da gestão municipal, foi indeferida por unanimidade pelo TRE-PB após impugnação baseada em elementos da Operação Mandare. A defesa dela negou envolvimento com organização criminosa e contestou os fundamentos utilizados pelo Ministério Público.
Cícero tem todo o direito de cobrar salários melhores, aumento de efetivo e políticas mais eficientes de segurança. Esse debate é legítimo. O problema político está na tentativa de colocar a polícia e a Segurança Pública exclusivamente no banco dos réus sem enfrentar, com a mesma ênfase, os questionamentos que atingiram sua própria gestão.
Quando operações policiais investigam a possível infiltração de organizações criminosas no poder público, cobrar resultados da polícia é legítimo. Desqualificar ou minimizar o trabalho dessas instituições quando as investigações chegam perto do próprio grupo político é outra discussão.
E é justamente essa contradição que Cícero precisará explicar ao eleitor: qual é a sua crítica, ou medo, à política de segurança do Estado ou às investigações e operações que as forças de segurança tem logrado êxito?


